Alunos de Santa Marinha lutam para que a crueldade da história jamas se repita

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Por Jorge Santos

Para que a história não se repita e com o mundo de hoje ensombrado pela violência sobre povos pelas suas identidades culturais, religiosas e étnicas, no átrio da Escola Básica (EB) 2/3 de Santa Marinha está recriado o ambiente vivido pelos judeus antes e durante a II Guerra Mundial (1939 e 1945). A exposição alerta para o que jamais poderá acontecer ou ser esquecido – o Holocausto.

A exposição “Lembrar para não repetir”, inaugurada a 27 de Janeiro e patente no átrio da Escola EB 2/3 de Santa Marinha até final de Fevereiro, surgiu no âmbito do “Dia Internacional Em Memória Das vítimas do Holocausto”.

A mentora do projecto Maria Helena Peixoto, professora de História, coordenou um vasto grupo de alunos e docentes. Realizaram a coreografia que animou a inauguração e construíram os adereços. A referência ao assunto não surgiu por mera associação à efeméride, como refere a responsável.

“Acho fundamental trabalhar este tema. Até para que a história não se repita. Hoje, mais do que nunca, vemo-la a repetir-se em muitos lugares, e de que maneira. Os holocaustos não terminaram”, explica a docente.

A professora está preocupada com o ensino e não teme a autocrítica. Porque o rumo da sociedade pode ser desviado, se a docência tiver outra abordagem. 

“Temos feito um mau trabalho ao nível da História; se tivéssemos falado abertamente sobre os extremismos, o Holocausto, os fascismos, corríamos menor risco, agora, de os ver repetidos. Em Portugal há uma escalada extremista enorme, que assusta”, assume Maria Helena Peixoto.

E estarão as pessoas a dar conta de tudo isto? “Não. Mas como encarregados de educação e educadores temos a obrigação de divulgar e formar de modo pedagógico para que nada do que se vê exposto no átrio venha a acontecer de novo”, defende.

Entre os muitos convidados presentes na inauguração, destaque para a professora Nevine, em representação de uma universidade do Canadá.

Coordenado por Maria Helena Peixoto, é um trabalho integrado com História e Cidadania e em colaboração com equipas de teatro, da dança, das várias artes e da educação visual e tecnológica.

Arte e emoção

Na inauguração, foi utilizado um flash movie, totalmente realizado pelos alunos de multimédia.

Recriando o ambiente de 1941, montaram, na entrada do edifício, várias estruturas simbólicas – porta dos campos de extermínio, câmaras de gás e camaratas.

O filme mostra, primeiro, os judeus a passear livremente, no meio dos alunos; depois, a chegada dos nazis – de preto e com as suásticas na braçadeira – que os vão deter e enviar para o campo; por fim, as vítimas caídas, mortas, com o fumo esbranquiçado, como se saísse das longas chaminés.

A apresentação acaba com dança contemporânea, com judeus e nazis juntos em palco, e a música “Guerra Nuclear”, de António Variações, cantada por uma aluna da escola. A coreografia é interpretada por um par de jovens do Ginasiano Escola de Dança, instituição privada com estatuto de utilidade pública.

Pelo interesse manifestado pelos jovens alunos, a iniciativa teve o peso necessário, tão desejado por quem idealizou.

Há gente que não se importa com os outros

A Maira tem 11 anos, frequenta o 6º Ano e é filha de um cabo-verdiano e de uma guineense. Emocionada com o evento, em que participou activamente, tem opinião bem formada sobre o Holocausto.

“Nesse período, as pessoas eram discriminadas, pois os nazis queriam que existisse apena uma raça e isso é muito mau. Toda a gente merece viver e o que foi feito não deve ser repetido”, defende Maira.

A propósito da crueldade de alguns seres humanos, refere o que acontece na Ucrânia. “Há gente que não se importa com as outras pessoas. Por exemplo, o Putin deveria dar atenção às pessoas que estão sem casa, sem abrigo, a morrer à fome. Era com isso que devia preocupar-se e não a matar quem não tem culpa de nada”, diz a menina de 11 anos.

“Não sabiam o que tinha sido o Holocausto”

Com 11 anos, a Margarida, também aluna do 6º ano, entendeu a iniciativa como uma excelente forma de informação a alguns colegas.

“Havia bastantes alunos que não sabiam o que tinha sido o Holocausto. O evento fê-los perceber toda a crueldade que não deve repetir-se”, diz.

Sobre a sua participação, destaca um cartaz muito importante: “Fiz um cartaz sobre um senhor português, Aristides de Sousa Mendes, que ajudou muitos judeus a escaparem dos campos de concentração”.

Depois de ouvir a sua colega Maira referir-se ao conflito na Ucrânia, atirou: “O Putin perdeu a União Soviética e como está tão obcecado em recuperá-la, nem pensa na quantidade de pessoas que mata e que é inocente. Como faziam os nazis quando perseguiram os judeus e ocuparam os lugares onde viviam”.

“Não devemos ignorar o passado”

Nascida no Brasil há 12 anos e há três a viver em Portugal, a Luise comunga da opinião das colegas no que se refere à repetição da história. E vai um pouco mais além.

“As pessoas devem ser tratadas da mesma forma, venham deste ou daquele país, tenham religiões iguais ou diferentes. São pessoas, merecem ser bem tratadas”, sublinha Luise.

Quanto à iniciativa, diz ainda que a ignorância é perigosa. “É bom fazer muitas iniciativas destas. Havia alunos que nem sabiam quem era Hitler, muito menos a sua história. E tudo pode acontecer outra vez devido à ignorância em relação a esse passado. Nunca devemos ignorar o passado”, conclui.