Um caminho para todos com o Cor(P)o Metropolitano

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É o poder da arte no ser humano, e, com a criação dos coros da Área Metropolitana do Porto, as gentes juntaram-se, criaram, transformaram. A intenção é abrir um marco importante na cultura intermunicipal e a apresentação está agendada para o próximo domingo, 2 de Outubro.

Por Caria de Oliveira e Francisco Silva

Na primeira fase do projecto foram convidadas pessoas para formar um coro. Um em Gaia e outros nos restantes 16 concelhos que formam a Área Metropolitana do Porto. A iniciativa chama-se Mater 17 e, apesar da música estar em destaque, outras áreas – visitas orientadas, jogos tradicionais, exibição de documentários – uniram comunidades com “identidade própria em memórias conjuntas”.

Na música, o objectivo era que, cada município, criasse um coro, com uma música, cuja letra projectasse a identidade das suas gentes. Em Vila Nova de Gaia, nem todos os convidados estavam habituados a cantar, alguns nem tinham conhecimentos de música, mas quando apresentaram o projecto final, o Coro Metropolitano de Gaia (CMG), no Convento de Corpus Christi, em novembro de 2021, foi apoteótico.

O mesmo foi acontecendo com os coros das localidades vizinhas e todos juntos criaram o Cor(p)o Metropolitano da AMP. Seguiu-se o desafio de olhar para o lado, emparelhar vizinhos, num projecto a dois. E Gaia, como não podia deixar de ser, juntou-se ao seu eterno namorado, o Porto, para que juntos trabalhassem nas suas pertenças e fizessem nascer uma criação dos dois coros. 

O desafio foi ganho

É neste trabalho que os cantores estão agora centrados. A directora musical é Inês Lapa, responsável pelo Coro Metropolitano de Gaia, que acedeu à missão de juntar e motivar pessoas tão diferentes, mas que “constituíram um sólido colectivo”.

A gaiense Inês Lapa nasceu na música, ainda experimentou a arquitectura, mas regressou à sua paixão nascida na Escola de Música de Perosinho. Acabou por rumou a Londres, onde concluiu o mestrado em liderança musical. Quando convidada para o CMG, sentiu o projecto do coro “como um grande desafio”, mas também, “muito gratificante ver como um grupo tão diverso de pessoas, com ou sem conhecimentos de música, sem qualquer experiência de cantar em coro, cresce”. Como em tudo, o importante aconteceu: “moldaram-se uns aos outros, acomodando diferentes realidades”. 

Também a colaboração com outras entidades de Gaia foi essencial, até porque às vezes há muita vontade de criar, mas falta o essencial: sala de ensaios. No caso do Coro Metropolitano de Gaia, Inês Lapa, habituada estas andanças, reconhece a importância da ajuda recebida pelo “Centro Recreativo de Mafamude que nos disponibilizou o espaço de ensaios e só assim foi possível juntar 35 pessoas”. 

17 em 1: a magia do trabalho em equipa

Juntar os elementos de 17 municípios e formar o Co(r)po Metropolitano da AMP estava inserido nas iniciativas da Mater 17.  Mauro Rodrigues, produtor cultural do projecto, aposta em 2022 para alcançar a meta estabelecida. 

“Parece que vamos poder concluir o nosso grande objectivo: juntar os 17 coros num único que vai acontecer a 2 de Outubro. O local ainda está por confirmar, mas, provavelmente, será em Espinho”. 

Porém, antes da grande data, há que ter em conta que é mais do que música, pois “a partir de um coro intermunicipal é também olhar para o concelho vizinho e trabalhar mais aprofundadamente em ideia de comunidade”. 

E depois de Outubro, o que reserva o futuro? “Passará pela vontade das comunidades envolvidas”, confirma Mauro Rodrigues. São mais de 350 pessoas num único coro, mas para o produtor é o processo que conta. “O resultado final é pertinente, mas é o processo que faz diferença. Estamos a falar, de identidades muito próprias, uns mais urbanos, outros mais do interior, de realidades distintas, como por exemplo, lugares onde as pessoas acordam às 5 da manhã para trabalharem os campos”. 

A esperança é que o projecto se mantenha com a vontade de todos os participantes e municípios envolvidos como tem acontecido e o marco do Co(r)po Metropolitano do Porto dure além de Outubro.

 “Acreditar que é possível”

Rita Campos Costa é a Directora artística do Coro Metropolitano do Porto. Jurista, quando foi para Lisboa fazer o mestrado, para pagar as despesas, começou a dar aulas de música. A que não foi alheio o facto de ter tido formação musical durante 18 anos. Agora, trabalha na Cooperativa Cultural Frenesim.

“A minha paixão é a criação artística, trabalhar com pessoas, ver o poder transformador que a arte tem. Pegar num grupo, tenham elas demência, seja uma empresa enorme ou não, e, com essas pessoas, abrir espaços no mundo. A música é para todos. A arte é para todos”.

Além da Frenesim, integra a “Sopa de Pedra”, banda constituída por 10 mulheres que cantam música tradicional à capela. “A única forma possível de fazer música com pessoas, em que ninguém tem que saber música, é acreditar que é possível. As sinergias que se criam no processo, o não ensinar uma música que já vem feita, faz com que o final seja original e ligado a toda a gente que cá está no coro da AMP”, diz Rita Campos Costa.

Experiências Todas Positivas

Cantar, juntar pessoas, incluir. Fazer acreditar. O Coro Metropolitano da AMP é o exemplo de uma iniciativa bem-sucedida. Agradou a todos. Desde os directores artísticos, às pessoas que participaram a cantar.

Fátima Pinto foi uma delas. “A Inês Lapa convidou-me. Inicialmente eu não quis vir, mas a colega que veio comigo insistiu tanto e acabei por ficar. É uma experiência nova, divertida, conhecem-se pessoas e passamos um tempo diferente. Nunca tinha participado num coro, nem tenho qualquer conhecimento de música, não sabia cantar… acho que continuo a não saber, mas a construção colectiva das músicas e das letras é muito engraçada. E com mais pessoas, mais interessante se torna”.

Carlos Teixeira, outro participante, também está muito agradado. “Tive conhecimento deste projecto através de um amigo ligado às artes. Participar neste cor(p)o tem sido gratificante. Estas iniciativas que acontecem em Vila Nova de Gaia são sempre de louvar.”