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Monday, April 22, 2024

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“Faço arte com o banal do meu dia-a-dia em Gaia, que representa muita da cultura suburbana portuguesa”

David Bruno dos Santos Besteiro nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1985, mas tem raízes em Figueira de Castelo Rodrigo (Guarda), zona de raia de onde são naturais os pais e os avós, sendo que o pai até calhou nascer em Moçambique.
Em nome próprio, David Bruno já lançou cinco álbuns, um EP e um single desde 2012, mas surgiu na cena musical como dB, produtor do Conjunto Corona.

Por Fernanda Maia

Em entrevista ao VOZES DE GAIA, assume fazer “arte com o banal” e com o que vê “no dia-a-dia em Gaia, que é uma terra especial, grande, que tem muita diversidade cultural, tem o mar, tem a serra, tem uma grande diversidade de pessoas e locais, e representa muito da cultura portuguesa, sobretudo na cultura suburbana portuguesa”. Que é aquela que retrata.

Apesar de ser David Bruno, criou o personagem “dB”. Porque sentiu necessidade de criar uma personagem para o seu público?

Não tem assim tanto de personagem quanto isso. Sou eu, que sempre fui uma pessoa muito observadora e que incorporo estes aspectos da cultura portuguesa, que não tenho, mas que observo como fazendo parte da nossa cultura, sociedade, e que tanta graça e carisma lhe dão. Criei esta personagem para poder acrescentar a mim próprio aquilo que eu admiro e respeito e é o objeto da minha obra, a cultura portuguesa.

Como considera que os gaienses vêem a sua arte?

É muito engraçada essa pergunta. Vêem de muitas maneiras. Muitas pessoas conseguem ver ironia nela, muitas pessoas acham piada, outras apreciam e vêem nela um objecto artístico, real, que apresenta algo real, que existe. Da minha parte, eu tento sempre fazer uma coisa: exponho factos, locais, pessoas, histórias que existem e deixo isso aberto à interpretação das pessoas, e considero legítimo qualquer tipo de interpretação, seja a pessoa que ache piada, seja a pessoa que leva aquilo muito a sério, veja algo de muito bonito. Os gaienses não fogem à regra. Em Lisboa veem isto como algo muito exótico, porque não conhecem Gaia nem os sítios que eu refiro. Mas em Gaia sabem do que eu estou a falar. Há vários tipos de interpretações, mas acima de tudo vêem que há um orgulho por haver alguém que retrate a cultura da sua cidade tal como ela é.

Guillermo Vidal / Arquivo PÚBLICO – Festival Super Bock em Stock – Concerto de David Bruno (na foto) e convidados, Coliseu dos Recreio

Porque há sempre Vila Nova de Gaia como inspiração?

Isso não é bem verdade. Tenho na minha discografia cinco álbuns e um deles é sobre Figueira de Castelo Rodrigo, zona da raia, da fronteira com Espanha, perto de Vilar Formoso, de onde são os meus pais e os meus avós. A grande parte, sim, é sobre Gaia. Eu retrato a cultura portuguesa do quotidiano, o banal. Eu faço arte com o banal e o que eu vejo no meu dia-a-dia é Gaia, que é uma terra especial, é grande, tem muita diversidade cultural, tem o mar, tem a serra, tem uma grande diversidade de pessoas e locais, e representa muito da cultura portuguesa, sobretudo na cultura suburbana portuguesa, que é aquela que eu retrato. 

Como surgiu a música na sua vida?

Através do meu pai, que é um grande coleccionador de música. Desde pequenino que me punha a ouvir muitas coisas. Sobretudo, muito Soul e R&B dos anos 70, discos que trouxe de Moçambique, local onde nasceu. Quando comecei a ouvir alguns temas, [notei que] utilizavam a técnica de sampling, que juntam pedaços de músicas para fazer outras músicas, como por exemplo o Hip Pop, que foi o primeiro estilo que fez isso em grande escala. Eu ouvia e conhecia de onde tinha vindo a música para fazer aquela. Foi aí que começou o meu real interesse pela música, mas a música surgiu na minha vida por responsabilidade do meu pai.

Como se dá o processo criativo musical?

Começa sempre com uma história. É algo que eu observo, que me espoleta na mente um filme, uma narrativa. É assim em quase todos os meus álbuns. O primeiro, O Último tango em Mafamude, era sobre um poeta da cidade, que a cidade não amava, em vez de uma mulher, e surgiu a seguir a vero filme O Último Tango em Paris.

O Miramar Confidencial inspirou-se numa série de murais que apareceram a dizer “Adriano Malheiro caloteiro”, e fui tentar saber mais sobre a história e, como não consegui, inventei uma narrativa por detrás daquilo. O último é uma áudio-novela que inventei de raiz com base em memórias da minha infância. Ou seja, o meu processo criativo antes de fazer uma música nasce de eu ver qualquer coisa à minha volta, uma história real sobre a qual eu construo uma narrativa. No fundo cada álbum tem uma narrativa semi-real, ou seja, inspirada em factos reais.

Como apresenta a sua arte ao público sénior?

Da mesma forma que apresento ao público júnior. Eu não tenho música a pensar nos mais jovens, ou para tocar numas festas. Eu faço música para toda a gente e não tenho estilo musical fixo. A música que faço alimenta as histórias que eu crio. Tenho todo o tipo de música. Tenho vindo a ter um público cada vez mais sénior. Hoje até acho que tenho um público dos oito aos oitenta.  Apresento a minha obra igual para toda a gente. Sempre com o mesmo discurso e a mesma forma de estar. Não distingo isso.

“A música que eu faço alimenta as histórias que eu crio”, diz David Bruno | Guillermo Vidal / Arquivo PÚBLICO

Se olhar para o Viaduto de Santo Ovídio, o que lhe vem à cabeça como inspiração musical?

O viaduto de Santo Ovídio faz-me lembrar o antigo viaduto de Santo Ovídio e aquela lenda de a rotunda de Santo Ovídio ser a mais congestionada da Europa. Digo isso a muitas pessoas quando passo por lá. Ao vivo tenho um vídeo de arquivo que passa por detrás de mim enquanto eu toco, que tem uma imagem de quando o metro começou a ser construído, com os autarcas a passarem uma caneta por cima do mapa de Gaia, e mostra o viaduto cheio de transito. 

Iniciou uma tour com o seu novo trabalho. Quais as expectativas de feedback do público?

Não penso muito nisso. Quando eu vou tocar tenho um espectáculo preparado. Falo muito com o público, e isso não se prepara. Depende do dia, da energia, etc.. Vou lá humildemente apresentar a minha música, falar com as pessoas, fazer com que elas saiam de lá leves. Ter o espectáculo mais interactivo possível, e esperar que eles gostem.

O primeiro concerto da tour foi em Mafamude. É uma forma de agradecer o mérito prestado pela sua freguesia?

Não. O primeiro concerto da tour foi no Theatro Circo, em Braga. Não é uma forma de eu agradecer o mérito pela minha freguesia. Acima de tudo é uma honra e é um grande orgulho. Já há muito tempo que andava para marcar uma data em Gaia. Foram duas datas. A primeira esgotou em vinte e quatro horas e a segunda um pouco mais. Foram dois concertos muito especiais. Andei a minha vida toda a fazer música sobre Gaia, a tocar no Primavera Sound, no Coliseu, etc., etc., etc., e foi a primeira vez que tive a oportunidade de tocar a música inspirada em sítios a cem metros dali. Foram realmente muito especiais. Talvez os concertos mais especiais da minha vida. Foi o primeiro concerto em que tive a minha mãe [a assistir] e meti-a a cantar comigo.

Alguma vez obteve resposta da Fundação INATEL devido ao seu tema? Qual a principal mensagem da música que pretendia passar?

O Inatel é uma memória da infância. Ir passar férias ao Inatel. Nós fizemos a música, o Inatel apoiou-nos, deixou-nos ir lá gravar a música, mas tiveram medo pois referenciámos outros hotéis e retiraram o apoio público. A partir dessa altura nunca mais tive feedback do Inatel.

Não tem receio de por vezes a sua arte poder ser mal interpretada, como é o caso da música INATEL?

Não tenho receio nenhum. Na minha música relato factos e falo só de coisas que existem e a interpretação é aberta e livre para cada um.

Há alguma previsão de trabalhar com nomes da música portuguesa, como já aconteceu com Rui Reininho e outros?

Como Gisela João e Mikel Nite. Há sempre. Eu não sou a pessoa que força isso, nem vai atrás. Se houver alguém de quem eu goste do trabalho, e ele goste do meu trabalho, vamos propor, sem pressão, e isso vai acontecer.

Nunca serei a pessoa que vai à procura de pessoas para entrar no meu disco para eu poder crescer. Não foi o caso de nenhuma destas pessoas até hoje. Se eles gostarem da minha obra, vamo-nos encontrar num ponto a meio do caminho, no máximo, e em que ficamos os dois contentes com o resultado.

Mais do que trabalhar com nomes da música portuguesa, maiores, é muito importante os artistas que começam a crescer nunca se esquecerem de trabalhar com os menores. Há muitas pessoas com talento e, quando se tem alguma visibilidade, trabalhar com artistas mais pequenos ajuda-os a lançar a sua carreira. Eu tive a sorte da Gisela João e do Rui Reininho, que são os maiores, trabalharam com muita humildade comigo, e podiam ter rejeitado facilmente. Eu poderei trabalhar com os nomes maiores, mas, acima de tudo, estou preocupado, à medida que cresço, em poder continuar a apoiar as bandas mais pequenas. Eles precisam, especialmente após este período da pandemia, em que esteve tudo parado na música portuguesa. É difícil começar uma banda nesta altura. Não há oportunidades para as bandas mais pequenas. Está tudo parado. Estou mais preocupado com isso do que quem será o próximo grande nome que irei convidar para cantar comigo.

Como se vê o David Bruno em 2033? A morar em Vila Nova de Gaia?

Sempre. Sempre. E se Deus quiser eu hei-de morrer em Gaia. Quiçá, um dia em que eu me fartar da música poder continuar a contribuir para divulgar o nome da minha cidade, com outros tipos de cargos. Gostava de poder, até á hora da minha morte, ser um embaixador de Gaia, com uma voz activa, que defende a minha terra e ama a minha terra, continuar a ser amado pela minha terra como eu sinto que sou hoje.

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