Sensori: a dança não é só palco

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Programa social inovador trabalha a “estimulação multissensorial” com 20 grupos, distribuídos por 4 horas diárias, de segunda a sexta-feira, com cerca de 200 pessoas. A maior parte dos grupos vem de 16 Instituições sinalizadas através da Câmara de Gaia, mas há também turmas com pessoas externas.

Por Aida Maria

Segundo os dados da Pordata, relativos aos Censos de 2021, Vila Nova de Gaia é o terceiro concelho mais populoso do país, com um pouco mais de 300 mil habitantes, e, nos últimos vinte anos, quase duplicou a sua população sénior (de 34.604 para 65.444). Este aumento implica, cada vez mais, a descoberta de novas abordagens para apoiar e desafiar esta faixa etária. É desta vontade que nasce o Sensori, programa de estimulação multissensorial através da música, movimento, dança e imaginação.

O Sensori, financiado em 70% pelo “Portugal Inovação Social” e em 30% pela Câmara de Gaia, veio criar desde logo novas práticas ao de retirar as pessoas das instituições, uma vez que são elas que se deslocam ao local das sessões que compõe o projecto, e não o contrário, como é frequente.

Este programa social inovador interliga a “estimulação multissensorial”, num espaço desenhado e preparado para o efeito, a “actividades com música e ritmos, movimento e dança, criatividade e imaginação” adaptados aos vários grupos de participantes. 

Tem como entidade implementadora o Ginasiano Coop e fazem parte activa do Sensori as professoras de dança Leonor Castro, que está à frente do projecto, Sara Moreira, Leonor Carneiro e a psicóloga Maria Simões.

Trabalham com 20 grupos, distribuídos por 4 horas diárias, de segunda a sexta-feira, com cerca de 200 pessoas, embora tivesse sido idealizado para 100. E ainda têm lista de espera. A maior parte dos grupos vem de 16 Instituições sinalizadas através da Câmara de Gaia, mas há também turmas com pessoas externas.

Teve início em Abril de 2022 e acabará em Junho de 2023. Os utentes tiveram uma avaliação inicial, uma intermédia e terão outra no final, feitas por uma entidade independente, com o intuito de analisar qualitativamente o impacto do programa.

Leonor Castro refere que “os grupos são o mais homogéneos possível do ponto de vista cognitivo, pois integram pessoas com envelhecimento biológico, outras com défices cognitivos e motores e, ainda outras com demência”.

A psicóloga Maria Simões tem aqui “um papel interventivo, em articulação com as colegas de dança, após as aulas e na colaboração com a equipa, para um planeamento ajustado às particularidades de cada grupo e de forma individual” e identifica “a progressão no tempo, de alguns utentes, em articulação com as respectivas instituições” de forma a cooperar para a melhoria da vida dessas pessoas. Sente uma “enorme satisfação por poder trabalhar com a população sénior, num projecto que traz inovação nas metodologias didácticas e pedagógicas”.

A professora Leonor Carneiro aceitou “de imediato o convite para participar no Sensori”, por o considerar “não só muitíssimo interessante, como necessário”. “Tem sido uma alegria muito grande, procurar contribuir diariamente para uma melhor qualidade de vida dos utentes e perceber como, efectivamente, este bocadinho connosco lhes faz e nos faz tão bem”.

A dona Maria e a dona Maria do Carmo, que fazem parte do grupo de uma Instituição, dizem que já não se imaginam sem esta hora semanal: gostam de tudo o que fazem na sessão, melhoraram a mobilidade (uma delas desloca-se com andarilho), reforçaram a camaradagem, gostam imenso da professora e da psicóloga e esperam que o projecto não acabe, pois seria o mesmo que “tirarem ao bebé o biberão”.

Há também turmas formadas por pessoas independentes, que não estão inseridas em nenhuma organização. 

A dona Esmerilda tem 83 anos e está a adorar “estas técnicas novas para combater o envelhecimento” e, se não fosse este projeto, “já não conseguia fazer determinadas tarefas”.

Já a senhora Filomena, de 71 anos, “está a gostar muito da experiência”. Tem problemas de equilíbrio e sente que estas sessões estão a ajudar a melhorá-lo.

Para muitos dos utentes, com idades entre os 61 e os 97 anos, autónomos ou com ajuda motora, este programa é também um bom motivo para saírem de casa e conviverem. Pela voz da maioria, é fácil perceber que gostariam que o Sensori acontecesse duas vezes por semana. E nem querem ouvir falar do seu fim.

Por isso, seria bom que o Sensori tivesse “pernas para andar” no futuro, segundo Leonor Castro. A responsável gostaria de o ver replicado e “a chegar a mais pessoas, primeiro em Gaia, mas também noutras regiões de onde surgiram pedidos, como o Porto e Matosinhos”. “Ao nível cognitivo, notam-se melhorias de memória. Na parte motora, há pessoas em cadeiras de rodas que já fazem a sessão fora delas e até os utentes com demências começam a reagir à música”. E remata: “a dança não é só palco”.