Um homem que sonhava e fazia o mundo avançar

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Fernando Peixoto escreveu dezenas de livros, ensaios, contos, romances, peças de teatro e desenvolveu, de forma expressiva, o associativismo em Gaia. Com a sua partida, aos 61 anos, ficou um vazio cultural e humano, é verdade, mas deixou-nos ensinamentos que mostram a importância de nunca deixar morrer os sonhos.

Por Jorge Santos

Fernando Peixoto nasceu à beira-rio, na freguesia gaiense de Santa Marinha, em 1947 e é a prova, contrariando alguns céticos, de que o Douro inspira as suas gentes.

Nasceu pobre, trabalhou e estudou em simultâneo e veio a tornar-se um dos nomes importantes da cultura gaiense. Nesta área, foi o teatro que mais beneficiou com o saber e empenho deste homem. Viveu tempos em que não era fácil triunfar. Foi preciso muita resiliência e muitos sonhos, seguramente.

Já em criança evidenciava dotes especiais, como nos conta a filha, Maria Helena Peixoto. “Ele nasceu na Rua Guilherme Braga, na zona histórica e na esquina havia uma alfaiataria que era do padrinho dele. Nessa altura, os alfaiates tinham muito clientes. Então o meu pai, ainda miúdo, ia para lá fazer imitações, encenações, teatros, enfim… Como tinha ‘público’, era uma maravilha”.

Com 14 anos começou a trabalhar de dia e a estudar à noite e na década de 60 já colaborava regularmente com os jornais “Diário de Lisboa” e “República”.

A guerra despertou consciência

Em 1969 foi mobilizado para a Guerra Colonial, em Angola. Período difícil da vida para um homem de causas, que bem o demonstrou em Maiombe, província de Cabinda. 

A filha recorda estes tempos marcantes: “Veio bastante marcado psicologicamente pela guerra; por exemplo, nunca mais se sentou de costas para uma porta. Mas lá em Angola passou um momento digno de registo. Foi parar a um batalhão no enclave de Cabinda, no qual era o único branco.  Apaixonou-se por uma mulata e viveu uns tempos com ela, no Maiombe. Mais tarde veio a saber que os ataques aconteciam antes e depois de ele por ali passar. Sabe porquê? Porque o meu pai ensinou aqueles miúdos a ler e a escrever. E muitas vezes trazia-lhes comida para lhes matar a fome que era muita.”

Aqui demonstra o seu carácter solidário e humanista que o orientou pela vida fora. Todas as guerras são más, mas esta, segundo os seus amigos e familiares, apurou-lhe o humanismo e abriu-lhe outros horizontes sobre o mundo em que vivia.

“Uma guerra que lhe transformou a visão do mundo e lhe deixou a constante vontade de combater as desigualdades e as injustiças e um desejo infindável de criar um mundo melhor, mais humano, mais justo. Foi essa guerra que fez nascer a novela “A Linguagem do Silêncio”, alguns anos mais tarde, como forma de exorcizar velhos fantasmas”, escreveram Helena Peixoto e José António Afonso numa breve biografia sobre Fernando Peixoto.

Acabar Licenciatura com 17 valores

Com 39 anos, Fernando Peixoto fez exame ad hoc e entrou em Letras, curso de História, ramo científico. Foi o melhor aluno de licenciatura, concluiu com 17 valores, o que lhe valeu o Prémio da Fundação Engº António de Almeida. E não ficou por aí.

“Fez o Mestrado em História Contemporânea, com uma dissertação sobre minorias religiosas e de pensamento, intitulada, “Diogo Cassels, uma vida em duas margens”. A seguir, veio o doutoramento debruçando-se sobre a área do Vinho do Porto – “O Instituto do Vinho do Porto e a Evolução do Sector – Do Corporativismo ao Modelo Interprofissional”. Não chegou a defender a tese porque um cancro no pulmão se agravou e ele acabou por falecer. Estávamos em 2008, tinha 61 anos e tinha tanto ainda para dar à cultura da sua terra. E, claro, à sua família.

Atenção especial a crianças e idosos

Toda a sua actividade académicas não lhe retirava o foco no associativismo, no ensino e no teatro. E também não lhe retiraram a vontade de contribuir para a melhoria das condições do povo da sua freguesia. Dificilmente um homem de causas não abraça a política. Fernando Peixoto fê-lo com o mesmo entusiasmo com que encenava uma peça, ou ensinava teatro na Escola Superior Artística do Porto (ESAP).

Cumpriu dois mandatos como Presidente da Junta de Freguesia de Santa Marinha. O que via à sua volta, o que conhecia do lugar onde nascera e sempre vivera, não lhe deixava a consciência tranquila se não tentasse fazer algo melhor pelas pessoas. A filha descreve bem esse período da sua vida.

“Ele tinha uma ligação umbilical à zona. Que era extraordinariamente humilde e muito problemática – alcoolismo, violência doméstica e outros casos graves. E o meu pai sentia que havia necessidade de reabilitar, tornara as condições de vida das pessoas mais dignas, um local que desse gosto ver e onde desse gosto viver. Não só a faixa costeira, para turista, mas ter um conjunto de infraestruturas que pudessem beneficiar os habitantes daquela zona pobre”.

E a sua candidatura autárquica, deu prioridade às pessoas?

“Sim, duas vertentes, as crianças e os idosos. Dar-lhes melhores condições de vida. E tornar Santa Marinha a Capital Mundial do Vinho do Porto. Funcionou como marca durante algum tempo, mas quando o meu pai saiu da Junta, foi abandonada”.

Cultura sempre multifacetada

Fernando Peixoto foi, também um dramaturgo, encenador e promotor do associativismo. Mas não podemos esquecer a faceta literária e ensaística. E muito menos a sua obra poética.

Maria Helena disse ao “Vozes de Gaia” que estão por editar a obra poética, obra teatral para a infância e uma colectânea de poemas sobre a Guerra Colonial. De especial importância uma obra editada, a única em português sobre a História do Teatro Europeu, da autoria de Fernando Peixoto.  

Maria Helena Peixoto, proprietária do espólio do seu pai, fez-nos uma revelação com um brilhozinho nos olhos. “Eu tenho, em termos culturais um vastíssimo acervo e quero pegar nos largos milhares de livros que estão aqui e transformá-los numa biblioteca em pleno Centro Histórico.”

Conhecendo Maria Helena Peixoto, também ela mulher de causas, da cultura, do associativismo e da história, não duvidamos que o faça. E Santa Marinha vai tornar-se um lugar muito mais rico. Que dê gosto conhecer e viver.

Fundar, escrever, encenar e actuar
Fernando Peixoto começou no Grupo Dramático e Musical, Flor D’Infesta, a convite do encenador Manuel Ângelo. Com a doença súbita deste, teve de ser Peixoto a encenar e representar. Foi na “Mordaça”, de Alfonso Sastre, em 1978. Ainda neste grupo encenou “Um Novo Dia Começa”, de Luís Francisco Rebello.
No Teatro5/Á Margem, de Gaia, encenou o “Auto das Barcas de Abril” (texto do próprio encenador); “História de uma Boneca Abandonada” (Alfonso Sastre); “Os Espantalhos e os seus Trabalhos” (texto próprio); “História Breve da Lua” (texto próprio); “As Árvores Falantes” (textopPróprio) e “Via Norte” (Bernardo Santareno), espectáculo que foi premiado. Ainda levou à cena, noTeatro5 /Á Margem, também com textos seus, um trabalho de teatro e dança com actores cegos e portadores do sindoma de Down, em 1980.
Por fim, no TAS (Teatro Amador de Sandim), encenou: “A Grande Jogada”, de José Viana (1980); “Gladiadores”, de Alfredo Cortez (1995); “Roberta”, de Romeu Correia (1996); “Viagem a Damasco”, de Norberto Ávila (1997) e “O Médico à Força”, de Moliére (2002).

“História do Teatro Europeu” é obra única.
O jornalista, poeta, dramaturgo, animador cultural, sindicalista, político, professor foi também historiador. Desenvolveu diversos projectos sobre a história do Vinho do Porto. Foi investigador da CENPA – Centro de Estudos Norte de Portugal e Aquitânia, do GEHVID – Grupo de Estudos de História da Viticultura Duriense e do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória”. É autor de mais de meia centena de publicações, em livros, capítulos de livros e artigos científicos, além de artigos de opinião, crónicas, poesias, ensaios e peças de teatro. Entre outros trabalhos, destacam-se, no campo da História, “Diogo Cassels, uma vida entre duas margens” (2001), “História do Teatro no Mundo” (2005), “História do Teatro Europeu” (2006) e “Do Corporativismo ao modelo Interprofissional: o Instituto do vinho do Porto e o sector do vinho do Porto” (2011), edição póstuma.
Paralelamente, desenvolveu actividade associativa de grande mérito em Gaia, sendo homenageado, quer pela Câmara Municipal, quer por outras instituições públicas e privadas que reconheceram a importância da sua obra no concelho de Gaia.