A riqueza nas pedras da Praia de Lavadores

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Por Jorge Correia

Delimitada, a oeste pelo Oceano Atlântico, com a influência estrutural do estuário do Rio Douro que divide Gaia do Porto, esta frente é conhecida pela sua extensa faixa costeira, com aproximadamente 17 km de areal, tendo Gaia, nos anos recentes o concelho do país com mais praias ostentando o prémio Bandeira Azul. 

Neste contexto de concelho com os olhos no Porto, que abraça o Rio Douro e o Oceano Atlântico, existe em Canidelo, mais precisamente na praia de Lavadores, um património geológico de reconhecido e elevado valor científico, a que se pode chamar o Geossítio da Praia de Lavadores. 

É de uma elevada riqueza científica a geodiversidade do local, a qual poderá ser definida como a multiplicidade de elementos rochosos, minerais, fósseis, falhas, dobras, formas de relevo e sequências sedimentares ou de solo, conjuntamente e em inter-relação com os processos naturais e ativos, como por exemplo a erosão e os deslizamentos. 

É inegável que o Geossítio da Praia de Lavadores, para além do seu interesse científico, tem também um elevado valor cultural, didático, turístico e até estético e que pode ser promovido para usufruto da sociedade.   

A geoconservação do local é importante, e consiste na protecção do património geológico, promovendo, simultaneamente, o uso racional desta componente não viva do património natural, pois os mesmos podem enfrentar diversos tipos de ameaças resultantes, quer de processos naturais, quer de intervenções humanas (como por exemplo o roubo e comércio ilegal de minerais e fósseis, vandalismo, mineração, ausência de legislação adequada, etc.).

Neste contexto, entrevistamos o professor Guerner Dias da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto para esclarecer algumas dúvidas:

Vozes de Gaia (VG) – Lavadores é o local mais interessante do ponto de vista geológico das praias de Gaia?
Guerner Dias (GD) – Confesso que não conheço todas as praias de Gaia com a mesma profundidade como conheço a área das praias de Lavadores e do Cabedelo. Neste sentido, poderemos afirmar que as praias de lavadores e do Cabedelo, a que podemos chamar geossítio da Praia de Lavadores, são, do ponto de vista geológico, provavelmente as mais interessantes, as mais importantes do ponto de vista geomorfológico, científico, pedagógico e mesmo do ponto de vista do turismo da natureza.

VG – Compreende as zonas de Lavadores e Cabedelo?
GD – Sim, podemos dizer que aquilo a que se convencionou chamar Geossítio da Praia de Lavadores compreende toda a área litoral que se estende desde a foz do rio Douro (limite a norte) até à praia das Pedras Amarelas ou, se quisermos, até à rua da pedra Torta, limite este já em terra.

 VG – Apesar da riqueza científica, a sua preservação estará devidamente acautelada?
GD – Admito que o trabalho desenvolvido em parceria entre a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e a Águas de Gaia é um importante passo para a preservação da área e do interesse científico e pedagógico que a mesma contém. Nos últimos anos assistiu-se a um importante trabalho, desenvolvido por técnicos com elevado conhecimento científico do local, trabalho esse fortemente apoiado, quer em recursos humanos, quer em recursos financeiros, pelas entidades de Gaia.

VG – Que projetos aconselharia para o local?
GD – Muitas vezes, a melhor forma de preservar um local é estudá-lo e divulgá-lo de forma coerente e sustentada. Caso o Geossítio da Praia de Lavadores seja devidamente divulgado entre as escolas locais e entre a população da área, serão estas as primeiras a adotar ações de proteção do local. Diga-se que o trabalho de divulgação que foi feito até agora (painéis/mesas interpretativas, marcas nas rochas, entre outras coisas), que se encontra no local desde o início da época balnear de 2020, permanece em muito bom estado de preservação. Assim, acredito que a divulgação possa ser uma forma interessante de preservar o local. Um primeiro projeto deveria passar pela oferta educativa, promovendo visitas guiadas ao local para as escolas de Gaia e, porventura, para as escolas de qualquer outra parte do território nacional. Depois disso, a organização de visitas para o comum do cidadão do conselho, também pode ser uma forma de divulgação muito interessante.

VG – O crescimento exponencial de imobiliária na antiga Seca do Bacalhau não será completamente destruidor?
GD – Penso que não. O projeto imobiliário da seca do bacalhau, goste-se ou não, na verdade não interfere com o Geossítio da Praia de Lavadores. Aliás, penso que a presença do geossítio será, por si só, um elemento valorizador do referido projeto e, assim, os seus futuros proprietários serão os primeiros a querer a sua proteção e valorização.

VG – Como sensibilizar as gerações futuras?
GD – Como diz a sabedoria popular: “de pequenino se torce o pepino”. A melhor forma de sensibilizar as gerações futuras, tal como já disse atrás, será a de divulgar o local e mostrar todo o seu potencial científico e pedagógico. A promoção de visitas de estudo ao Geossítio de Lavadores, desde a escola primária, até alunos de níveis mais avançados, como o universitário, permitirá que os diferentes estudantes fiquem a conhecer o local e assim possam ficar sensibilizados para a sua proteção e preservação.