Seca deixa agricultores e pastores do Norte apreensivos

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Culturas deste ano e do próximo podem estar comprometidas, caso não sejam tomadas medidas de prevenção para a falta de água. Produtores ainda estão pouco sensibilizados para a gravidade da situação.

Por Dina Costa

A Associação dos Agricultores e Pastores do Norte (AAPN) está apreensiva quanto ao futuro das colheitas deste ano e, talvez até, do próximo. Em causa está a falta de chuva nestes meses de Inverno, ao mesmo tempo que as reservas de água parecem não ser suficientes para fazer face às necessidades dos produtores. “O Norte sofre de uma seca meteorológica e não hidrológica, como no Sul”, diz o director João Morais, citado pela Agência Lusa. Mesmo assim, revela, em pleno Inverno há quem tenha de recorrer à rega  artificial para manter as culturas.

João Morais lembra que, em 2017, foi criada a Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca. “A comissão devia reunir para prevenir ou antecipar problemas futuros e não existe”, sublinha. Reconhece haver já algumas medidas importantes no terreno, como o recentemente publicado incentivo aos regadios tradicionais. “Mas a carga burocrática” e o facto de ser necessário avançar com as verbas, mesmo em projetos financiados a 100%, desmotivam os agricultores.

Da parte da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP), a construção de mais “Alquevas” é a solução. “Temos de reservar água, fazer barragens e seguir o exemplo do grande Alqueva. [Esta preocupação devia existir] há mais tempo, há alguns bons anos a esta parte, [sem] termos estes problemas ideológicos, quase aberrantes, contra a guarda da água”, defende Firmino Cordeiro, director-geral da AJAP.

Alertando contra o perigo da desertificação acelerada do interior continental de Portugal, Firmino Cordeiro vinca não ser necessário “fazer barragens em todo o lado”, antes “ter algumas mega-barragens que alimentem as outras, e depois, seguir a regra da otimização, da utilização para níveis mínimos, mas que mantenha a vida e a capacidade produtiva das plantas”.

Portugal consome mais água do que a média mundial

A situação das culturas de regadio pode piorar nos próximos meses em Portugal. De acordo com um estudo de divulgado pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) no ano passado, e encomendado à empresa de estudos de mercado C. – The Consumer Intelligence Lab, 75% da água disponível em Portugal é consumida na agricultura. A média europeia é de 24% e a mundial de 69%.

Mesmo assim, o estudo “O uso da água em Portugal – Olhar, compreender e atuar com os protagonistas-chave” deixa uma mensagem de optimismo. “O movimento para a adopção de sistemas de rega mais eficientes está a fazer-se – 65% dos agricultores inquiridos já adoptaram sistemas localizados de rega gota-a-gota. Mas ainda há uma grande maioria – 71% – que não tem contador de água.” Mais: 61% por cento garante não pagar a água que consome.

Sublinhando ser “urgente” resolver este problema, o trabalho da FCG aponta como possóiveis soluções “a adopção de equipamentos de precisão e optimização da rega (sondas, por exemplo)”. A minoria que aderiu aos novos sistemas de rega tiveram “poupanças hídricas de 20%”. Só com um forte investimento na capacitação dos agricultores, acrescenta o documento, é que “há um valor, um benefício subjacente que importa compreender”. Isto é: para garantir a sustentabilidade da agricultura em Portugal é urgente saber utilizar a água que consumimos.