O local onde as pessoas ajudam… ajudando-se

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O sector da saúde vive uma das maiores ondas de choque provocadas pelo SARS-COV-2. Médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar estão na linha da frente dos cuidados a quem deles mais precisa. Mas há trabalhos quase invisíveis e que mantêm a máquina hospitalar oleada e a funcionar, sem ainda mais sobressaltos. O Vozes de Gaia dá a conhecer o que é e o que faz a Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

A pandemia trouxe desafios para vários sectores e serviços da sociedade, mas nenhum se compara ao impacto identificado nos serviços de saúde de qualquer país. Depois da gripe espanhola em 1918, o mundo não experimentava uma ameaça de saúde global como a que o SARS-COV-2 impôs de forma inesperada, expondo fragilidades não só nos sistemas de saúde, como em todo o tecido social e económico de todos os países.

Os profissionais de saúde estiveram, e ainda estão, no “olho do furacão”, enfrentando desafios e experimentando aprendizagens diárias. O Vozes de Gaia foi ouvir um dos inúmeros grupos de profissionais que actua na retaguarda, realizando um trabalho não menos importante daquele que é efectuado pelos médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e tantos outros. São eles os Voluntários.

Carolina Viana, directora técnica da Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia – CHVNG, explica ao Vozes de Gaia os desafios enfrentados pelos voluntários. Uma equipa essencialmente formada por seniores que, a despeito dos receios com a chegada das primeiras notícias do SARS-COV-2 no mundo, e não muito tempo depois em Portugal (Fevereiro de 2020), mantiveram as actividades do voluntariado nas três das quatro unidades do centro hospitalar funcionando.

O momento em que uma das pacientes assinalou a 12.ª sessão de tratamento. Foto DR.

Precisamente, a 17 de Março de 2020, por determinação das autoridades de saúde, em ofício enviado aos conselhos de administração dos hospitais, foram suspensos os trabalhos de voluntariado nestas unidades de saúde.

Até àquele momento, revela Carolina Viana, “o espírito de missão não considerava ser o momento de abandonar o barco quando ele estava a afundar”. O medo natural diante do desconhecido foi, aos poucos, dando lugar à confiança com os esclarecimentos e orientações dos profissionais de saúde. “Procedimentos que foram primordiais para que toda equipa adotasse comportamentos de segurança”, diz.

E que procedimentos eram esses? Acções tão simples em tempos normais, mas que agora requerem cuidados redobrados: dar de comer à boca dos pacientes, ajudar na movimentação daqueles com dificuldades de mobilidade e outros “mimos”.

Novos desafios sob a capa do medo

Além de conviver com o medo, o desafio era buscar alternativas ao trabalho realizado no terreno. A partir daquele momento, essas tarefas não poderiam mais ser realizadas.

Inicialmente, com a produção das próprias máscaras de tecido, com as orientações recebidas pela comissão de infecção do hospital. Posteriormente, numa altura em que ainda as máscaras era ainda um acessório escasso no mercado, disponibilizar essa ferramenta de protecção à comunidade.

Em Abril do ano passado, durante o período de confinamento, os voluntários, mesmo aqueles que não se deslocavam para a sede da Liga, colaboravam na confecção das máscaras comunitárias.

Esse mutirão possibilitou que, em Maio seguinte, pudessem, por orientação do hospital, entregar aos doentes de risco (oncológicos, imunodeprimidos e de cuidados paliativos) que tinham que deslocar ao hospital, um kit com duas máscaras e embalagens de álcool em gel.

“A Liga nunca fechou as portas e sempre teve o cuidado de não colocar os voluntários em risco”, adianta Carolina Viana. Cientes da importância do trabalho que realizam, “procuraram sempre, com o apoio do hospital, desenvolver novos serviços que pudessem atender e/ou auxiliar nos cuidados com os doentes”.  Um serviço, por exemplo, que sempre existiu, mas ganhou escala, numa altura em que os cabeleireiros também estavam encerrados, foi o de apoio para o corte do cabelo e orientações em como cuidar do couro cabeludo, sobretudo as provas de prótese capilar (cabeleiras), para os doentes oncológicos em tratamento quimioterápico.

As sessões de recuperação física (e psíquica) são fundamentais. Foto DR.

“Não somos bombeiros”

Mesmo estando envolvidos em muitos procedimentos na chamada “linha da frente, Carolina Viana deixa bem claro: “Não somos bombeiros que socorremos todos os fogos”. Porém, a adaptabilidade é o verdadeiro espírito das ligas, do associativismo e das missões do voluntariado.

Muitas associações fecharam as portas durante esse período porque não inovaram, pois continuaram a fazer incidir o foco apenas no serviço que estavam acostumados a fazer. E sendo o público que caracteriza o corpo do voluntariado constituído por pessoas já aposentadas das suas profissões, esses locais acabam por ser centros de convívio, que auxiliam no envelhecimento activo, em que as pessoas ajudam… ajudando-se.

Portanto, “a Liga do Amigos do CHVNG procurou sempre manter o relacionamento com esse grupo que foi orientado a ficar em casa”. “Tínhamos a perfeita noção do que esse isolamento representava para essas pessoas ao nível de saúde mental. E como temos um espaço privilegiado com acesso diferenciado do hospital, passámos a buscar muitos voluntários a casa para que pudessem continuar participando nas actividades com toda a segurança”, explica Carolina Viana.

Uma aula de ginástica financeira

A pandemia trouxe vários constrangimentos à actividade normal dos voluntários do hospital. Para evitar danos maiores, a Liga dos Amigos do CHVNG foi forçada a reduzir o número de voluntários de 100 para cerca de 30, assim que os sinais de alarme começaram a soar, no ano passado. Estas três dezenas actuam na Unidade I, apoiando as visitas aos doentes (dois voluntários, por sala), com apoio à desinfecção das mãos e supervisão na partilha do telemóvel dos visitantes com os doentes.

O pessoal da Liga interveio ainda no Centro de Reabilitação do Norte, cuidando dos filhos de funcionários que provavam não ter rectaguarda para os deixar em casa, por ocasião do encerramento dos infantários. “Esse apoio permitiu que os pais pudessem dar continuidade aos serviços essenciais nas instituições em que trabalhavam”, adianta a directora técnica da Liga. No serviço de Oncologia, a actuação está restrita à cozinha, com a preparação de chás e distribuição de bolachas.

A acção dos voluntários estende-se ao apoio às solicitações do hospital, no provimento de roupas para doentes sem familiares, que precisam ir para lares e serviços de cuidados continuados. Fornece ainda ajudas técnicas gratuitas, como camas articuladas, andarilhos, canadianas e cadeiras-sanitas. 

É muito comum a Liga contar com a colaboração de profissionais da área de saúde que, depois da reforma, sentem falta do convívio com os seus pares e se apresentam para o voluntariado.

A grande preocupação de Carolina Viana acaba por ser mesmo a questão financeira. Mesmo tendo em conta que praticamente todos os voluntários colaboram nas actividades regulares da Liga, o dinheiro escasseia… Feitas as contas, são cerca de 1 000 euros por mês que a entidade recebe dos seus associados – a um euro mensal de quota. “É uma verdadeira ginástica financeira para dar conta de todas as demandas que são colocadas ao trabalho de voluntariado da Liga”, lamenta.

Apesar destas e de outras dificuldades na gestão corrente, os 32 anos de existência da Liga dos Amigos do CHVNG não desiste de ajudar os outros. “Ter disponibilidade para fazer o bem ao outro e a si, são condições fundamentais para se ser um voluntário da Liga. Mente sã em corpo são, os elementos necessários para poder cuidar do outro”, diz Carolina Viana.

É com base no princípio da perseverança que esta instituição tem feito o seu percurso. Nos primeiros tempos, ocupava um espaço tímido, onde hoje funciona o Hospital de Gaia (Unidade II), nascida a partir de pessoas ligadas ao hospital: médicos e enfermeiros preocupados em oferecer cuidados diferenciados na humanização dos serviços. O espaço actual da Liga tem apenas um ano de funcionamento. Hoje, é utilizado prioritariamente por doentes em tratamento – com serviços como educação física para doentes oncológicos.

Carlos Caldas

A Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Gaia existe há 32 anos, numa luta diária pela obtenção de meios de auxílio aos pacientes desta unidade hospitalar. Foto DR.

O QUE É O QUÊ NO VOLUNTARIADO

Confederação Portuguesa do Voluntariado – CPV

A Confederação Portuguesa do Voluntariado foi constituída a 19 de Janeiro de 2007. Congrega actualmente 39 organizações de voluntariado e promotoras de voluntariado – associações singulares, federações e confederações – com variados objectos de actuação de âmbito nacional.

Federação Nacional de Voluntariado em Saúde – FNVS

A Federação Nacional do Voluntariado em Saúde congrega e representa, desde 21 de Maio de 2007, organizações que têm como objectivo e fim último o voluntariado em saúde e que se denominam associadas. Possui 50 associados activos.

Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Gaia – LACHG

Número de ordem 00008 como associado fundador com adesão à FNVS em 21 de Maio de 2007.

Quantos voluntários há na FNVS?

A FNVS integra 46 organizações de voluntariado e de voluntários do Campo da Saúde, (correspondendo a cerca de 54 410 membros e 9 840 voluntários de acção direta), estabelecidas em quase todos os distritos de Portugal continental e na Região Autónoma dos Açores (dados da FNVS). A FNVS presta serviços de consultoria jurídica, contabilidade e fiscalidade, segurança, higiene e saúde no trabalho, serviços de seguros de acidentes pessoais para voluntários, dirigentes voluntários e para participantes de actividades. Além disso, orienta acções de formação para qualificação de voluntários e de gestores de voluntariado, tendo disponível uma bolsa de formadores.

Por onde começar para ser voluntário?

São inúmeros os sítios na Internet que disponibilizam listas de instituições abertas ao voluntariado. Um desses casos é o site https://bolsadovoluntariado.pt. Ao longo das 238 páginas de organizações com as quais é possível ser voluntário, há um pouco de tudo: solidariedade social, artes, desporto, cidadania, saúde, novas tecnologias, educação… Quem já souber ao que vai, pode aceder directamente à página da entidade, recolher novas informações e inscrever-se.

No mundo…

A janela de oportunidades abre-se ainda mais quando o mundo é o palco escolhido para fazer voluntariado. O site www.volunteer.com, por exemplo, disponibiliza 178 programas em praticamente todas as latitudes. Curiosamente, no top 10 desses programas está um que é português, o Food Rescue Helper, de Lisboa. O objectivo é o de combater o desperdício alimentar e ajudar cerca de 3 000 famílias. “Descrubra Portugal, enquanto viaja como um local e crie um impacto social realmente positivo”, pode ler-se na apresentação. Opções não faltam.