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Friday, December 9, 2022

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Dinheiros europeus para a saúde mental são “uma fisga”

A pandemia foi o mote para o debate promovido pela Rádio Nova e que juntou três especialistas de diversas áreas

Por Aida Maria

Os 85 milhões de euros que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) vai destinar à área da saúde mental em Portugal são “uma fisga e não uma bazuca”. A afirmação é de Miguel Bragança, assistente graduado em Psiquiatria do Centro Hospitalar Universitário de S. João. A situação, diz, já era delicada até ao surgimento da pandemia da Covid-19 e não vai sofrer alterações com esta injecção de dinheiros comunitários. “Não há uma equipa para monitorizar o que se pretende fazer”, defende o clínico, que aponta como solução haver “vontade política e centrar a atenção nos doentes e não nas instituições e nos seus profissionais”.

Miguel Bragança falava no debate Descobrir Mentes, promovido pela Rádio Nova, sobre o estado da saúde mental em Portugal. À mesma mesa sentaram-se também Jorge Pereira, especialista em enfermagem comunitária no Hospital Geral de Sto. António, e Jorge Bouça, coordenador de saúde mental na Administração Regional de Saúde do Norte (ARSN) e director do serviço de Psiquiatria do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho.

Modelo descentralizado é melhor

O impacto que a pandemia está a causar na saúde mental dos portugueses ainda não é muito claro. Os estudos parecem escassear e os existentes não serão disponibilizados em tempo útil pela Direcção Geral da Saúde.

O medo da socialização e as restrições de movimentos resultantes do estado pandémico levaram a uma redução das idas aos hospitais, centros de saúde e consultório – a solução passou por manter o contacto com os pacientes através de meios remotos, como o telefone ou o email.

No caso da psiquiatria, defendem os três clínicos, o modelo deve ser multipolar e descentralizado. “Em Portugal não há emprego, muito menos emprego seguro. Não há saúde sem saúde mental, física, social, económica, etc.”, defende Manuel Bragança.

Uma boa oportunidade

Jorge Pereira está na área da Psiquiatria há mais de 30 anos. Integra uma equipa em Gondomar e trabalha essencialmente com doentes mentais graves, em que a proximidade e a reabilitação são decisivas. Mas, devido à falta de recursos humanos, “basicamente, assegura a administração da medicação”. E sendo os hospitais financiados por actos médicos, há ainda muito trabalho a fazer fora desta área. Por isso, as equipas de psiquiatria deveriam ser compostas por médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais… Apesar de se considerar um optimista, Jorge Pereira não sabe se o dinheiro do PRR vai fazer a diferença neste sector, pois tem assistido a muitas promessas ao longo da carreira, mas sem grandes avanços.

Já Jorge Bouça considera que esse dinheiro é uma boa oportunidade para a saúde mental em Portugal, onde é habitual “fazer-se muito, com muito pouco”. O coordenador de saúde mental na ARSN espera que as experiências-piloto existentes sejam implementadas e alargadas pela “bazuca”. Estão previstos “15 novos Centros de Responsabilidade Integrados, com autonomia e orçamento próprios, e as equipas de saúde mental comunitárias: equipas completas, que se instalam num local e tratam de uma população até 1200 habitantes”. O investimento, acrescenta, “poderá implementar os cuidados continuados de saúde mental, bem como este tipo de saúde, em contexto prisional”.

Na Europa, parte das baixas médicas está relacionada com a depressão. No ranking europeu das doenças mentais, Portugal está em segundo lugar (precedido pela Irlanda), no que concerne à depressão e à ansiedade. O Covid-19 já foi apelidado de “vírus da solidão”. Mas só o tempo dirá quais as consequências.

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