António Pereira da Costa, o gaiense escultor da Amazónia

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São José sobre a Pedra do Guindaste no Leito do Rio Amazonas/Cidade de Macapá

Nascido em Valadares, emigrou para o Brasil no início do século XX e tornou-se uma das grandes figuras artísticas do Brasil, deixando obras de enorme valor.

Por Neca Machado (texto e fotos)

António Pereira da Costa deixou Vila Nova de Gaia aos 13 anos para transformar a sua vida, e de muitos cidadãos brasileiros que tiveram a oportunidade de conviver com ele e conhecer seus trabalhos, no extremo Norte do Brasil, parte ocidental da Amazónia, fronteira com a Guiana francesa. O dia 24 de Setembro assinala, simbolicamente, os 107 anos da chegada deste então jovem gaiense ao novo mundo da Amazónia.

Quando deixou Vila Nova de Gaia levava na bagagem lembranças de velhos casarios, imagens de anjos que ornamentavam as lápides do cemitério de Valadares, ornatos de prédios portugueses que aprendeu a amar desde criança. E com essas lembranças tornou se um dos maiores escultores no Brasil, contribuindo com sua arte para o desenvolvimento de cidades na Amazónia, como Amapá e Belém do Pará, onde estão a maioria de seus trabalhos.

ANTÓNIO PEREIRA DA COSTA NÃO TINHA FORMAÇÃO ARTÍSTICA E FOI UM DOS FUNDADORES DO CONSELHO DE ENGENHARIA E ARQUITECTURA DOS ESTADOS DO AMAPÁ E DO PARÁ.

Sem formação científica na área de engenharia foi o responsável pela execução das maiores obras públicas do estado do Amapá, onde fundou uma empresa de construção, alem de ser especialista na execução de ornatos, (estuques, esculturas e monumentos em pedras artificial, alem da execução de projetos). Fornecia ainda mosaicos, esculpia imagens de santos, restaurava ornatos, fazia trabalhos artísticos, fachadas, e muitas das suas obras apresentam anjos com rostos familiares (um com a imagem da sua filha Maria), além de ser um dos fundadores do Conselho de Engenharia e Arquitetura dos estados do Amapá e do Pará.

Colégio Amapaense, obra executada por António Pereira da Costa

António Pereira da Costa nasceu a 17 de Fevereiro de 1901, em Valadares, Vila Nova de Gaia, filho de Joaquim Pereira da Costa e Maria Rosa Costa. O seu pai, integrando um grupo de artistas imigrantes europeus portugueses e italianos, chega ao Rio de Janeiro na segunda década dos anos de 1900 com o objectivo de executar trabalhos na sua arte, que era escultor e estucador, naturalizando-se depois brasileiro.

Com o falecimento de sua mãe, António Pereira da Costa passou a ajudar o pai na execução de ornatos na cidade de Belém do Pará em obras no Palacete Bolonha. Percebendo que precisava de aperfeiçoamento técnico na arte de ornatos, António Pereira da Costa foi para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Escola de Belas Artes. Lá ficou entre 1917 e 1920, quando, por falta de recursos, teve que abandoná-la e retornar a Belém do Pará.

depois de um século, as obras de antónio pereira da costa ainda permanecem actuais na amazónia. muitas foram reformadas, conservando as estruturas tradicionais.

Antes, porém, executou trabalhos artísticos no Prédio do Rio Cassino, dentro do Passeio Público ao lado do Palácio Monroe na cidade do Rio de Janeiro. Em 1921, viajou para a cidade de São Luiz, no estado do Maranhão, com a incumbência de esculpir a imagem de Nossa Senhora da Conceição no frontal da catedral da cidade.

No mesmo ano, juntamente com seu pai, foi para a cidade de Manaus, onde os dois realizaram trabalhos de restauração na fachada do Teatro Amazonas. Casou-se em 1922 com a pernambucana Lydia Bezerra da Silva, com quem teve oito filhos: Erotylde, José, Elza, Maria Rosa, Joaquim Agostinho, António Filho, Mário e Terezinha. Em 1923, foi chamado novamente a cidade de São Luís para esculpir o busto do então governador do Maranhão, época em que nasceu a sua primeira filha Erotylde, a única maranhense.

Leões erguidos na sede da Ordem dos Advogados do Amapá

Ainda em São Luís, esculpiu também o Busto de Tarquínio Lopes Filho, proprietário e diretor do jornal a “Folha do Povo.” Instalando-se na cidade, o seu pai Joaquim Costa montou uma fábrica de artefactos de cimento, como mosaicos e marmorites, transferindo-a anos depois com todo o maquinário para Belém do Pará.

Depois de um século, as obras de António Pereira da Costa ainda permanecem actuais na Amazónia. Muitas foram reformadas, conservando as estruturas tradicionais, como a primeira escola de Macapá, a tradicional Escola Barão do Rio Branco, que foi entregue à população em Setembro deste ano.