Histórias de Sandim no Facebook

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Camioneta n.º 2 da entretanto extinta Auto Viação Sandinense, em 1953. Foto: DR.

Página dedicada a uma das maiores freguesias do concelho de Vila Nova de Gaia divulga cultura, etnografia, desporto e tradições nasceu há cerca de meio ano.

Raposo Antunes

Natália Batista tem entre mãos uma demanda – revelar a história de Sandim, seja ela cultural, desportiva ou etnográfica. E a missão a que se dedicou há menos de meio ano esta funcionária do Hospital de Gaia, com 49 anos, está já marcada pelo sucesso. O grupo de Facebook “Histórias de Sandim”, do qual é a única administradora, tem já perto de dois mil seguidores, cativando não só os habitantes desta freguesia de Gaia, como sandinenses radicados noutras localidades do país ou do estrangeiro.

“Tenho imenso feedback dos nossos emigrantes”, conta Natália, nascida e residente desde sempre numa das maiores freguesias do concelho em termos de área, mas das mais pequenas no que diz respeito à população – 11 mil moradores. “Embora haja muita gente que trabalha em Gaia e no Porto, aqui há também ainda muita agricultura. E somos a freguesia mais periférica em relação à sede de concelho”, descreve.

Capela-Mor do Mosteiro de Vila Cova das Donas, (já extintos), situado no lugar do Mosteiro. Foto: DR

Mesmo com o “feedback” que o Facebook lhe proporciona (“foi uma surpresa haver tanta adesão”), garante que não criou o grupo com o propósito de suscitar repercussões. “Tenho um gosto especial com tudo que tem a ver com Sandim: a nossa história, as famílias daqui, as tradições, e os episódios desta terra que é provavelmente das mais desconhecidas do concelho”, afirma ao Vozes de Gaia, garantindo que está convencida que uma boa parte dos sandinenses ignora a existência deste passado – “e até alguns dizem que aqui não temos nada”.

Joaquim Vieira, o globetrotter

Essa não é seguramente a opinião de Natália Baptista, que foi buscar a inspiração para esta demanda precisamente a alguém que fez o mesmo trabalho quando ainda não havia redes sociais, nem muitas outras coisas. Joaquim Vieira nasceu em Sandim em 1919. Não era um intelectual nem académico. Era antes um serralheiro que correu o mundo como um verdadeiro globetrotter, mas foi acompanhando sempre a vida da sua terra até regressar em 1980.

“Uma grande parte das coisas que publico tem como origem o espólio do senhor Joaquim Vieira, que mesmo quando estava emigrado fazia angariações de fundos para a equipa de futebol dos Dragões Sandinenses, que também ajudou a fundar, mas também para outras associações da freguesia”, relata.

De resto, quando voltou a assentar arraiais por cá e até falecer, Joaquim Vieira colaborou com essas associações, conduzindo carrinhas, angariando sócios, tendo sempre como mantra a palavra Sandim.

Natália Baptista exclama: “Este espólio tinha de ser divulgado. Ele chamava-lhe ‘a minha farraparia’”. No fundo, o grosso desse espólio eram fotos de tudo o que se passava em Sandim, recortes de artigos de jornais e manuscritos.

Mas a administradora deste grupo de Facebook faz também questão de sublinhar que neste meio ano lhe foi chegando às mãos material proveniente de outras fontes, designadamente a história da fundação em 1968 do Teatro Amador de Sandim.

Dragões Sandinenses versus Sporting

As pesquisas são mesmo uma caixinha de surpresas para esta funcionária do Hospital de Gaia. “Imagine que me chegou às mãos um documento feito por João Saúde, em 31 de Maio de 1982, que é no fundo a história da fundação dos Dragões Sandinenses. Quando a neta me entregou a história (recentemente) ele já tinha falecido. Mas viveu mais de 100 anos.”

Para um clube que agora joga nos distritais, poucos imaginarão que em 1921 existia o Futebol Clube de Sandim e o Águias Futebol Clube, e que uns anos mais tarde decidiram fundir-se num só clube – Os Dragões Sandinenses. Uma das primeiras tarefas foi encontrar pessoas que pudessem ceder terrenos para construir o campo de futebol. “Alguém se chegou à frente. E nessa mesma noite, o senhor João Saúde foi cortar os pinheiros que existiam no terreno dado para que o benfeitor não voltasse com a palavra atrás”. E não voltou. Nem os Dragões Sandinenses, que chegaram a jogar na segunda divisão nacional no último quartel do século XX, defrontando mesmo o Sporting na Taça de Portugal.

Sócios números 1 e 2 d’Os Dragões Sandinenses. Foto: DR.