Acolher refugiados é também ser casa

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Júlia Morais recebeu um casal de refugiados ucranianos através da plataforma “Somos Todos Ucrânia”. A sopa portuguesa é um dos deleites gastronómicos que já se enraizou nos recém-chegados.

Por Paula Gomes, Manuel Martins e Sónia Martins

Desde o início da guerra na Ucrânia, Portugal já acolheu milhares de refugiados ucranianos. Para acomodar este fluxo, as câmaras de Porto, Vila Nova de Gaia e Matosinhos uniram-se no apoio aos refugiados através da campanha “Somos Todos Ucrânia”, para dar uma resposta concertada e de grande escala à crise de novos refugiados que a invasão da Ucrânia pela Rússia está a provocar. 

Assim, os três municípios da Frente Atlântica juntaram-se para uma resposta humanitária, ao organizar todas as manifestações de apoio, em particular na oferta de bens, serviços, emprego e acolhimento.

Muitos munícipes de Gaia voluntariaram-se para auxílio aos refugiados, mais propriamente acolhê-los. Uma dessas pessoas foi Maria Júlia Morais que contou como o processo aconteceu. 

“Quando decidi apoiar, pensei bastante, foi um pouco difícil, porque é sempre uma insegurança, mas como tinha algum espaço vazio, fiz o que devia fazer”, afirmou. 

Entretanto, como foi criada a plataforma “Somos Todos Ucrânia”, Júlia Morais inscreveu-se e, através do Alto Comissariado para os Refugiados, foi contactada por um representante a quem disponibilizou o seu espaço. “Tivemos de preencher um formulário online com o nome, identificação e referência ao espaço disponível. Inicialmente iriamos receber duas mães e três filhos, mas como estes elementos tinham os papéis necessários para vir, ligaram a perguntar se aceitávamos receber um casal de reformados, ela com 68 e ele com 72 anos. Quando os recebemos, veio uma tradutora da Câmara de Gaia, trazer o casal e comunicámos através da tradutora. Traziam autorização do SEF para permanecer um ano e já lhes tinha sido dado número de segurança social e número de utente.”

A propósito do acolhimento Júlia Morais acrescenta: “Tenho oito irmãos e pedi-lhes ajuda, organizámos tudo em casa, em termos de acomodação e, na chegada, uma cama fresca e uma sopa portuguesa esperava por eles”, lembra. 

“Ensinei-os a fazer sopa portuguesa e eles gostam muito, que sabe muito bem”, mas, em como limitação, “a comunicação não foi fácil inicialmente, ainda que a senhora percebesse algumas palavras em português. Estavam na expectativa de como ia ser a estada, mas, entretanto, gestualmente, conseguimos instalá-los e deixei-os a sós,” explica.

Neste contexto, acrescenta Júlia Morais, “eles não pagam nada, mas como se sentem muito agradecidos, fui encontrá-los a arranjar o meu jardim, a retirar as ervas. Na Ucrânia, vivem em Kiev e são ambos economistas.”

Como a língua é um veículo para a integração deles no país de acolhimento, “a senhora ucraniana frequenta aulas de português”, refere Júlia Morais.

Perguntámos a Júlia Morais como eram as relações familiares deste casal: “Têm uma filha a estudar cá no Porto com uma amiga.” 

E mantêm contacto com a Ucrânia? “O meu irmão arranjou-lhes um computador já antigo e, com uma adaptação que lhes permitiu ligar à televisão, conseguiu que eles pudessem comunicar pela internet e ter acesso a um canal ucraniano.”

Muito embora se considere que seja linear, o acolhimento é também um processo de encontrar uma zona de entendimento entre duas culturas diferentes, em que quem chega traz memórias e uma “casa” reduzida a objectos extremamente necessários. Por isso, há igualmente uma necessidade de construção de alicerces no novo local onde encontram. Assim, “acolher é mais do que ter alguém em casa, é ser empático com as diferenças e trabalhar nas semelhanças”, diz Júlia Morais. “Assim todos aprendemos mais sobre o ser humano”, termina.